Sāṃkhya
A conta das categorias
Escola dualista: postula duas realidades eternas — Puruṣa, a consciência pura, e Prakṛti, a natureza material. A libertação acontece quando o Puruṣa se reconhece como distinto da Prakṛti.
दर्शन · Darśana
O Sanātana Dharma nunca foi um sistema único. Darśana significa “visão” ou “ponto de vista”: seis escolas clássicas aceitam a autoridade dos Vedas e, ainda assim, discordam profundamente sobre o que é real, como se conhece e o que liberta.
Como o corpus se organiza
A literatura sagrada hindu divide-se em duas grandes categorias. A Śruti — “aquilo que é ouvido” — é tida como revelação direta, eterna e sem autoria humana. A Smṛti — “aquilo que é lembrado” — foi composta por sábios e mestres para explicar e desdobrar as verdades da Śruti.
O coração da Śruti são os quatro Vedas. Cada um deles se desdobra em quatro camadas que registram um deslocamento notável do pensamento: das Saṃhitās (hinos e mantras) às Brāhmaṇas (o sentido dos ritos), destas às Āraṇyakas (os “textos da floresta”, para quem vivia retirado) e, por fim, às Upaniṣads. É nas Upaniṣads que a investigação passa do ritual para a natureza da realidade última — Brahman — e sua relação com o eu individual, Ātman. Por isso as Upaniṣads são chamadas de Vedānta, “o fim dos Vedas”.
A Smṛti tem autoridade secundária, mas é ela que, na prática, mais formou a vida religiosa da maioria dos hindus: os épicos Mahābhārata e Rāmāyaṇa, o Bhagavad Gītā contido no primeiro, os Purāṇas que alimentaram a devoção (bhakti) e os Dharmaśāstras, códigos de conduta.
As Upaniṣads marcam a passagem do ritualismo para a pergunta filosófica: o que é, afinal, real — e quem é aquele que pergunta?
Síntese explicativa, não tradução de texto
Nota editorial: entre os Dharmaśāstras, o Manusmṛti é o mais citado. É um documento historicamente situado, que codifica hierarquias sociais de sua época — e foi objeto de crítica e recusa dentro do próprio hinduísmo, notadamente no pensamento reformista dos séculos XIX e XX. Registrá-lo como parte do corpus não implica endossar sua ordem social.
Os seis pontos de vista
Chamam-se āstika (ortodoxas) por aceitarem a autoridade dos Vedas — o que não as impede de divergir entre si sobre quase tudo o mais. Escolas nāstika, que não aceitam essa autoridade, seguiram outros caminhos.
A conta das categorias
Escola dualista: postula duas realidades eternas — Puruṣa, a consciência pura, e Prakṛti, a natureza material. A libertação acontece quando o Puruṣa se reconhece como distinto da Prakṛti.
O caminho prático
Aceita a metafísica do Sāṃkhya, mas acrescenta Īśvara, o Deus pessoal, e oferece o método: os oito membros do Rāja Yoga sistematizados por Patañjali.
A escola da lógica
Dedica-se à lógica e à teoria do conhecimento: quais são os meios válidos de conhecer. Reconhece percepção, inferência, comparação e testemunho.
A análise da substância
Escola atomista. Analisa a realidade em categorias de substâncias e sustenta que os objetos físicos se reduzem a um número finito de átomos.
A investigação do rito
Concentra-se na exegese dos Vedas e na correta execução dos sacrifícios (yajñas), entendidos como o caminho principal para o dharma.
Uttara Mīmāṃsā
Volta-se para a filosofia das Upaniṣads. É a escola mais influente do hinduísmo hoje e se desdobra em três correntes principais, apresentadas a seguir.
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Três leituras das Upaniṣads
As três partem dos mesmos textos e chegam a conclusões distintas sobre a relação entre Deus, a alma e o mundo. A divergência não é acidental: é o próprio modo como a tradição pensa.
Não-dualismo · Ādi Śaṅkara (c. 788–820)
Brahman é a única realidade. O mundo fenomênico é māyā, ilusão relativa, e o eu individual (Ātman) é idêntico a Brahman. A libertação vem pelo conhecimento (jñāna) que dissolve a ilusão da separação.
Não-dualismo qualificado · Rāmānuja (c. 1017–1137)
Brahman é a realidade suprema, mas não é impessoal: identificado com Viṣṇu, possui atributos. O mundo e as almas são reais e formam o “corpo” de Deus. A libertação vem pela devoção (bhakti) e pela graça.
Dualismo · Madhvācārya (c. 1238–1317)
A realidade é irredutivelmente dual. Brahman (Viṣṇu), as almas individuais e o mundo material são três realidades eternas e distintas. A libertação é união amorosa com Deus — mas a alma permanece sempre distinta d’Ele.
Quem formou o pensamento
Apresentações introdutórias. Cada figura tem uma obra e uma linhagem que merecem estudo próprio.
Advaita · c. 788–820
O grande expositor do Advaita Vedānta. Percorreu a Índia debatendo com outras escolas e fundou mosteiros (maṭhas) que permanecem centros de estudo. Seus comentários às Upaniṣads, aos Brahma Sūtras e ao Gītā são textos fundadores.
Viśiṣṭādvaita · c. 1017–1137
Principal expoente do não-dualismo qualificado. Criticou o monismo estrito de Śaṅkara, defendendo um Deus pessoal e a realidade do mundo. Deu ao movimento bhakti sua base teológica.
Dvaita · c. 1238–1317
Fundador da escola dualista e crítico severo tanto de Śaṅkara quanto de Rāmānuja. Sustentou a distinção radical entre Deus e a alma, com a devoção e a graça como únicos meios.
Místico · 1836–1886
Santo de Bengala que não escreveu livros — seus ensinamentos foram registrados por discípulos. Percorreu pessoalmente práticas de várias tradições e ensinou que são caminhos distintos para o mesmo Deus.
Vedānta no Ocidente · 1863–1902
Principal discípulo de Rāmakṛṣṇa. Apresentou o Vedānta ao Ocidente no Parlamento das Religiões de 1893, em Chicago, e fundou a Ramakrishna Mission, voltada ao serviço social.
Karma Yoga aplicado · 1869–1948
Líder da independência indiana, com filosofia enraizada em ahiṃsā (não-violência) e na busca da Verdade (satya), que equiparava a Deus. Releu o Karma Yoga como serviço abnegado aos oprimidos.
Nota editorial: as datas de Śaṅkara e dos demais mestres clássicos são objeto de debate entre historiadores; as indicadas aqui seguem a datação mais corrente. Esta seleção é introdutória e deixa de fora inúmeras figuras e linhagens — entre elas correntes śaiva, śākta e tântricas, além de vozes femininas como Āṇṭāḷ e Mīrābāī.
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